
O silêncio de uma casa enlutada tem peso próprio. Descobri isso na primeira manhã sem mamãe. Quando acordei, esperava escutar seus passos arrastados no corredor, mas encontrei apenas vazio denso, quase sólido. Cinco dias haviam passado desde o funeral. A sala principal ainda guardava fantasmas da cerimônia — cartões de condolências empilhados no aparador, flores…

O despertador não toca há três semanas. Acordo sempre às sete e meia, como se houvesse algum compromisso à espera. Não há. A luz da manhã entra torta pela persiana quebrada e desenha listras no assoalho de madeira que range sob meus pés descalços. O apartamento cheira a café velho e partituras esquecidas. Caminho até…