
O cheiro de lavanda estava errado. Helena para na escada do sótão. O piso de madeira geme sob seus pés descalços, sempre no quarto degrau, particularidade da casa que conhece há trinta e oito anos. A mão direita firme no corrimão de carvalho que seu marido, Daniel, prometera trocar há três anos. Sente o aroma…

A enfermeira Carmem possuía teoria particular sobre marcas de nascença. Quarenta anos de plantão na maternidade São José, quinze mil bebês examinados — acreditava que cada sinal na pele revelava algo sobre personalidade futura. Nonsense científico, obviamente, mas funcionava como conversa tranquilizadora para pais nervosos. O corredor oeste cheirava eternamente a antisséptico misturado com expectativa.…

O silêncio de uma casa enlutada tem peso próprio. Descobri isso na primeira manhã sem mamãe. Quando acordei, esperava escutar seus passos arrastados no corredor, mas encontrei apenas vazio denso, quase sólido. Cinco dias haviam passado desde o funeral. A sala principal ainda guardava fantasmas da cerimônia — cartões de condolências empilhados no aparador, flores…

O despertador não toca há três semanas. Acordo sempre às sete e meia, como se houvesse algum compromisso à espera. Não há. A luz da manhã entra torta pela persiana quebrada e desenha listras no assoalho de madeira que range sob meus pés descalços. O apartamento cheira a café velho e partituras esquecidas. Caminho até…

Papel velho não engana. Desenterrei o envelope, com o testamento, do fundo da gaveta, entre recibos e cartas que nunca mereceram resposta. O cheiro de mofo era quase doce, como fruta passada. Tive vontade de rir — herança, pra essa família, sempre veio azeda. Quebrei o lacre. O estalo ecoou pelo quarto.Li depressa, como quem…

Campainha toca às três. Olho pelo olho mágico: terno puído, sorriso de dentes antigos.— Trouxe troco? — voz rouca, dedos tamborilam no vidro. Quero rir, mas frio percorre a espinha.— Banco tá fechado — aviso e giro a tranca. Sombra escorre por baixo da porta, cheiro de flores velhas invade o corredor.Fôlego curto, mãos apertam…

Empurrei a porta da loja. Poeira, prateleiras tortas, relógios antigos que marcavam horas diferentes.— De onde veio este anel? — perguntei ao velho atrás do balcão. Ele sorriu com seus dentes de ouro.— De onde todos vêm — respondeu com uma piscadela. O anel tinha meu nome gravado, data de hoje.Travei o maxilar.— Isso é…

Rodei a campainha três vezes antes de desistir. Placa dourada na porta: “Imortalidade — só para corajosos”. A porta abriu. O sujeito de terno vinho piscou e cochichou:— Pode entrar! Ou vai viver para sempre aí fora? Ri, ajeitei minha mochila nos ombros.— Vi gente sumir depois dessas promessas. Ele apontou para a sombra atrás…

Apoiei as mãos na pia, encarei o espelho. Minha imagem bocejou antes de mim. Sobrancelhas erguidas, sussurrou:— Pronto para encarar tudo? Revirei os olhos.— Só queria escovar os dentes sem terapia gratuita. O reflexo sorriu, mas não era do sorriso.— Ignorar de novo? Virei as costas, respiração curta.Luz piscou.— Foge, campeão. Sou só teu lado…