Dois dias depois, ao chegarem em casa após mais uma consulta, Helena vê Sofia sentada na sala, os olhos vermelhos.
— Mãe, preciso conversar com você. — A filha olha para Daniel com uma expressão que Helena não consegue decifrar. — A sós.
— Filha, sua mãe acaba de sair da consulta médica. Talvez…

Sofia se levanta e cruza os braços.
— Não, papai. Agora.

Daniel olha para uma, depois olha para outra e vai para o escritório. Helena acompanha as passadas. Assim que somem, Sofia se aproxima.
— Mãe, encontrei alguns papéis no escritório do papai. Sobre você, sobre… avaliações psiquiátricas.
— Que tipo de papéis?
— Documentos sobre internação involuntária. E pesquisas sobre as leis de herança quando a pessoa é declarada mentalmente incapaz.

Helena senta-se pesadamente no sofá. As peças começam a formar padrão que ela não quer enxergar.
— Tem certeza do que viu?
— Tenho. — Sofia puxa o celular e mostra fotos dos documentos. — E tem mais. Pesquisei sobre a Dra. Alana. Ela não tem a melhor reputação. Teve problemas éticos em dois hospitais anteriores.

Helena olha para as fotos na tela, as letras dançam diante de seus olhos. Talvez seja o início dos medicamentos, ou talvez a cristalização do medo em certeza.


Helena no jardim.

Está de pijama, os pés descalços frios contra a grama úmida do orvalho. O relógio da igreja distante marca cinco da manhã. Suas pegadas na terra molhada traçam caminho claro até o canteiro onde Rosane costumava plantar violetas.

— Helena! — A voz de Daniel vem da porta dos fundos. — Pelo amor de Deus, o que você está fazendo aí fora?

Ela olha para as próprias mãos. Olhos arregalados, vidrados. Estão sujas de terra, como se tivesse estado cavando. Mas não há buracos no canteiro, apenas a terra revirada de forma estranha, quase como letras.
— Não sei. — Sua voz soa distante para os próprios ouvidos. — Eu estava… ela me chamou.
— Quem te chamou?
— Rosane. — Helena aponta para o canteiro. — Ela disse que estava enterrada no lugar errado.

Ela é guiada para dentro da casa pelo marido, os braços firmes ao redor de seus ombros. No banheiro, enquanto Daniel lava suas mãos, ela tenta reconstruir a noite anterior.
— Lembro do remédio prescrito pela Dra. Alana, de ter ido dormir normalmente. Depois, apenas o vazio até acordar no jardim.
— Vou ligar para a doutora — diz ele, enquanto a observa através do espelho.
— Não. — A resposta sai mais alta do que pretendia. — Não quero mais remédios. Eles me fazem… me fazem esquecer das coisas.
— Helena, você acordou no jardim conversando com sua irmã morta. Precisa de ajuda.

Ela se vira para encará-lo. Há algo nos olhos dele, uma satisfação mal disfarçada que faz seu estômago embrulhar.
— Por que você parece contente?
Viu ele franzir a testa.
— Contente? Estou preocupado. Muito preocupado.

Mas sua negação vem rápida demais, ensaiada demais.

Naquela tarde, com Daniel no escritório, Helena reabre o diário de Rosane. Mais páginas parecem ter aparecido, escritas com a caligrafia que ela conhecia tão bem:
“Ele vem ao meu quarto quando Helena sai para a faculdade. Diz que é especial, que é assim que homens mostram carinho. Mas por que dói tanto? Por que me sinto tão mal depois?”

O diário caiu. Daniel conheceu Rosane quando ela tinha treze anos, mas eles mal se falavam. Ele era o namorado da irmã mais velha, que engravidou aos 18 anos, e foram morar juntos. Sempre respeitoso, sempre gentil.

Ou não?

As memórias se fragmentam quando ela tenta focalizá-las. Rosane ficara estranha nos últimos meses de vida. Evitava a todos, trancava-se no quarto. Seria a adolescência, os dramas típicos da idade? Poderia ela pensar que o casamento da irmã com o Daniel pudesse afastar as duas?

O telefone toca. Helena atende. As mãos vacilam.
— Alô?
— Helena? É a Dra. Alana. Daniel me ligou contando sobre o episódio desta manhã. Preciso vê-la ainda hoje.
— Não posso. Estou… não me sinto bem.
— Exatamente por isso preciso vê-la. Vou até aí, se necessário.

Tentou protestar, mas a ligação se encerra antes. Vinte minutos depois, a campainha toca. Dra. Alana está na porta, com maleta médica e sorriso profissional.
— Onde está Daniel?
— No escritório. — Helena hesita. — Não liguei para ele.

Alana entra sem esperar convite.
— Eu liguei. Ele está vindo.

Sentam-se na sala. Alana faz perguntas sobre a noite anterior, sobre os sonhos, sobre as vozes que Helena diz ouvir. Suas anotações são rápidas, precisas, como se já soubesse as respostas.
— Vou ajustar sua medicação. E acho que devemos considerar um ambiente mais controlado para seu tratamento — o tom da psiquiatra sai grave.
— Ambiente controlado?
— Internação breve. Apenas para estabilizar o quadro.

Helena sente o corpo se esvaziar.
— Não quero ser internada.
— Não é questão de querer. É questão de segurança. Sua e de quem convive com você.
— Eu preciso de um copo d’água. Esta conversa está me deixando nervosa.

Daniel chega, as chaves ainda na mão.
— Como ela está?
— Precisamos conversar — diz Alana, enquanto se levanta. — Em particular.

Eles saem para o jardim. Helena volta da cozinha e os observa pela janela. Vê o marido gesticular enquanto a psiquiatra fala. Não consegue ouvir as palavras, mas a linguagem corporal era clara: intimidade, cumplicidade, plano sendo coordenado.

Os dois retornam para a sala. Dra. Alana se despede e vai embora. Daniel vai para o escritório. Helena se dirige para o armário da sala, abre gaveta e levanta as toalhas de mesa. O diário de Rosane sumiu.


Helena vê Sofia chegar durante o jantar com a expressão sombria que conhece desde a infância. A face que a filha fazia quando havia descoberto algo importante.
— Pai, mãe, preciso mostrar uma coisa para vocês.

Daniel larga o garfo. — Se é sobre o trabalho…
— Não é sobre trabalho. É sobre a Dra. Alana Mendes.

Sofia abre o laptop e o coloca sobre a mesa entre os dois. A tela mostra uma página de notícias de dois anos antes: “Médica perde licença temporariamente por relacionamento inadequado com paciente casado.”
Helena lê em voz alta: — “Dra. Alana Mendes, psiquiatra de 38 anos, teve sua licença suspensa por seis meses após admitir envolvimento romântico com paciente que estava tratando por depressão. A esposa da vítima, que descobriu o caso, processou tanto a médica quanto o hospital…”

Daniel fecha o laptop bruscamente.
— Chega! Isso não tem nada a ver conosco.
— Tem sim! — Sofia reabre a tela. — Porque o paciente era casado, rico e estava sendo tratado para um possível diagnóstico de incapacidade mental. Que coincidência interessante, não acham?

Daniel se levanta da mesa.
— Sofia, sua mãe está doente. Não ajuda nada criar teorias conspiratórias.
— E você? — Sofia se vira para ele. — Como conhece a Dra. Alana mesmo? Porque liguei para seu escritório. Ninguém lá conhece nenhuma psiquiatra.

O silêncio se estendeu por segundos longos demais. Finalmente, Daniel suspira.
— Conheci Alana em um evento social. Quando sua mãe começou a apresentar sintomas, pensei nela. Foi só isso.
— Evento social? — Helena sente sua voz ficar fina. — Que evento social?
— Um jantar beneficente. Você estava gripada, não foi.

Ela não se lembra de nenhuma gripe, nenhum jantar. Mas, então, não se lembra de muita coisa ultimamente.

Sofia não parece convencida.
— E por que vocês se falam como velhos amigos? Ouvi uma conversa telefônica sua ontem. Você a chamou de “querida”.
— Você está espionando conversas privadas? — A voz de Daniel sobe uma oitava.
— Estou tentando proteger minha mãe de alguma coisa que não entendo. — Sofia se volta para Helena. — Mãe, você assinou algum documento sobre a herança da tia Margareth?
— Ainda não. Seu pai disse que era urgente, mas…
— Não assine nada. — Sofia pega a mão da mãe, que ouve atônita. — Prometa que não vai assinar nada sem me mostrar primeiro.

Daniel bate a palma da mão na mesa. — Basta! Helena está doente, precisa de tratamento, e vocês ficam alimentando paranoias. Dra. Alana é profissional competente que está tentando ajudar.

Sofia cruza os braços.
— Então por que ela não atende no consultório dela mais? Por que todas as consultas agora são aqui em casa?

Helena pisca. Era verdade. As últimas três sessões tinham sido em casa, sempre com Daniel presente, sempre com pressão para aumentar a medicação.
— É mais confortável para sua mãe.
— Ou mais conveniente para vocês dois.

Daniel deixa a sala e bate a porta. Helena e Sofia ficam sozinhas no silêncio pesado que se segue.
— Filha, talvez você esteja exagerando…

Sofia segura seu rosto com as duas mãos.
— Mãe. Você é arquiteta. Uma das mentes mais organizadas que conheço. Desde quando você deixaria uma caixa guardada por quinze anos sem lembrar?

A pergunta ecoa na mente de Helena. Sofia tem razão. Ela nunca esquece onde guarda as coisas. Nunca. Mas agora? A cabeça gira.
— Desculpa filha. Mas preciso dormir.






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