Arquivo de #ContoBrasileiro - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/contobrasileiro/ Site de Sérgio de Castella Fri, 22 Aug 2025 22:59:02 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://sergiodecastella.com/wp-content/uploads/2025/06/Icone-site-150x150.png Arquivo de #ContoBrasileiro - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/contobrasileiro/ 32 32 245308716 Rádio Pirata https://sergiodecastella.com/radio-pirata/ https://sergiodecastella.com/radio-pirata/#respond Sat, 23 Aug 2025 11:00:00 +0000 https://sergiodecastella.com/?p=300 O silêncio de uma casa enlutada tem peso próprio. Descobri isso na primeira manhã sem mamãe. Quando acordei, esperava escutar seus passos arrastados no corredor, mas encontrei apenas vazio denso, quase sólido. Cinco dias haviam passado desde o funeral. A sala principal ainda guardava fantasmas da cerimônia — cartões de condolências empilhados no aparador, flores […]

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O silêncio de uma casa enlutada tem peso próprio. Descobri isso na primeira manhã sem mamãe. Quando acordei, esperava escutar seus passos arrastados no corredor, mas encontrei apenas vazio denso, quase sólido.

Cinco dias haviam passado desde o funeral. A sala principal ainda guardava fantasmas da cerimônia — cartões de condolências empilhados no aparador, flores murchas que Helena insistia em manter. Objetos pessoais de mamãe permaneciam exatamente onde ela os deixara: óculos de leitura sobre o romance inacabado, chinelos de feltro ao pé da poltrona favorita, xale de crochê dobrado no braço do sofá.
— Devíamos guardar essas coisas — murmurei, tocando o xale.
— Ainda não — respondeu Helena da cozinha, voz firme. — Muito cedo.

Minha irmã havia assumido o comando da casa com naturalidade desconcertante. Aos quarenta e três anos, dois mais velha que eu, sempre demonstrara essa capacidade organizacional que eu nunca possuí. Enquanto eu cambaleava entre negação e desespero, ela mantinha rotinas: café pontualmente às sete, medicamentos dela mesma no horário exato, contas pagas em dia.

Observei ela preparar chá — movimentos precisos, econômicos. Cabelos castanhos presos no coque habitual, roupas práticas, postura ereta. Contrastávamos completamente: onde ela era metódica, eu hesitava; onde ela decidia, eu procrastinava. Mamãe sempre dizia que Helena herdara senso prático do pai, enquanto eu ficara com sensibilidade excessiva.
— Você precisa voltar ao trabalho — disse ela, enquanto servia açúcar. — Ficar parado não ajuda.
— Mais alguns dias.
— Ricardo…
— Mais alguns dias, Helena.

Ela suspirou, mas não insistiu. Conhecia meus limites melhor que eu mesmo.
Subi ao quarto de mamãe, refúgio que visitava várias vezes por dia desde a morte dela. Cortinas fechadas mantinham penumbra acolhedora. O perfume dela persistia — talco, lavanda, essência indefinível de pessoa muito amada. Sentei na poltrona onde ela costumava fazer tricô, tentei sentir a presença dela.

Foi quando notei.

Rádio pequeno na mesa de cabeceira, madeira escura envernizada, botões amarelados pelo tempo. Aparelho que, definitivamente, não estava ali ontem.

Estranhei. Mamãe detestava rádio — “essas vozes me deixam agitada”, repetia sempre. Preferia silêncio ou seus discos antigos.

Levantei, examinei o aparelho mais de perto. Antena telescópica meio estendida, dial posicionado em frequência que não reconheci. Toquei os botões, superfície lisa e fria.

Helena deve ter encontrado em algum armário durante arrumação. Mas por que colocar justamente ali?

Por impulso, liguei o rádio. Estática áspera encheu o quarto. Girei o dial lentamente, procurei estações. Mais estática. Interferência aguda. Depois, cortando através do ruído como lâmina afiada, voz que parou meu coração.
— Ricardo, querido.

A voz dela. Nítida. Real. Impossível.

A rádio pirata apareceu depois que mamãe morreu.


Meu sangue gelou nas veias. A voz dela — nítida, carinhosa, impossível — cortou o silêncio do quarto como lâmina afiada.
— Ricardo, querido.

Soltei o dial do rádio. Minha mão tremia violentamente. Era ela. Cada entonação familiar, cada inflexão que me acalentara durante quarenta e um anos. Não era memória distorcida pelo luto, não era alucinação auditiva. Era mamãe falando comigo através daquele aparelho maldito.
— Procure no cofre. Por trás da certidão de nascimento.

A transmissão cortou abruptamente. Estática áspera dominou o ambiente por alguns segundos, depois silêncio absoluto. Girei o dial freneticamente, tentei encontrar a frequência de volta. Nada. Apenas ruído branco que parecia zombar do meu desespero.

Meu coração martelava as costelas com força brutal. A respiração saía em rajadas curtas, superficiais. Senti-me tonto, desorientado. Precisei me apoiar na cômoda para não desabar no chão. O quarto familiar de repente parecia estranho — cortinas de renda balançavam levemente na brisa, fotografias me observavam das paredes, perfume persistente de talco e lavanda mais intenso que nunca.

Como isso era possível?

Mortos não falam. Mortos não dão instruções específicas sobre cofres e documentos. Eu estava perdendo a razão — tinha que ser isso. O luto havia finalmente quebrado minha sanidade. Conhecia casos assim: pessoas que, no auge da dor, começavam a escutar vozes dos entes queridos. Mecanismo de defesa da mente, tentativa desesperada de manter conexão perdida.

Mas a qualidade da voz… Deus, como era real. Cada sílaba cristalina, sem distorção de memória ou crença no meu desejo. Não era eco nostálgico de conversas passadas. Era presença viva, atual, que falava especificamente comigo naquele momento.

E as instruções eram tão específicas. Por trás da certidão de nascimento. Como minha mente poderia inventar detalhe tão preciso? Eu nem sabia que havia certidão de nascimento no cofre — sempre assumi que documentos assim ficavam em cartório.
Lá embaixo, ruídos sutis chegavam da cozinha. Helena mexia panelas, abria armários, preparava algo. Normalidade absoluta. Sons familiares que me ancoravam na realidade tangível. Minha irmã mantinha rotinas meticulosas desde a morte de mamãe — como se a ordem doméstica pudesse conter o caos do luto.

Caminhei até a janela, olhei para o jardim que mamãe cuidava com tanto carinho. Roseiras ainda floridas, gramado aparado, canteiros organizados. Tudo exatamente como ela deixara. Helena mantinha tudo impecável, honrando a memória através da preservação.

A racionalidade brigava contra esperança desesperada no meu peito. Parte de mim queria acreditar que mamãe realmente estava tentando me comunicar algo importante. Que a morte não era fim absoluto, que amor materno transcendia barreiras físicas. Que ela ainda cuidava de mim, mesmo do além.

Mas a parte lógica insistia: alucinação auditiva. Produto do luto extremo. Minha mente criara mecanismo elaborado para lidar com perda insuportável.

Voltei ao rádio, examinei o aparelho sob luz da tarde. Madeira escura polida, botões de metal, dial analógico. Construção sólida, antiga. De onde tinha vindo? Como aparecera no quarto sem que ninguém o colocasse lá?

Liguei o aparelho novamente. Estática normal preencheu o ambiente. Girei o dial devagar, procurei por qualquer sinal da voz. Nada. Apenas interferência branca e, ocasionalmente, fragmentos distorcidos de estações comerciais.

Minhas mãos tremiam ligeiramente enquanto ajustava a frequência. Parte de mim implorava por outra mensagem, qualquer coisa que confirmasse que não estava enlouquecendo. Outra parte tinha medo do que mais poderia escutar.

Desci as escadas devagar, pernas ainda instáveis. Precisava ver Helena, confirmar que o mundo ainda funcionava normalmente. Ao passar pela cozinha, vislumbrei minha irmã preparando chá, movimentos precisos e familiares. Ela ergueu os olhos e me ofereceu sorriso caloroso.

Aquele sorriso me tranquilizou momentaneamente. Mas as palavras da rádio ecoavam na minha mente: “Procure no cofre. Por trás da certidão de nascimento.”
Decisão estava tomada. Investigaria.


Subi ao escritório de papai com passo decidido, mas coração disparado. O cofre ficava atrás do retrato da família — ironia amarga, se considerar o que estava prestes a descobrir. Digitei a combinação que sabia de cor: data de nascimento de mamãe. O mecanismo clicou, porta pesada se abriu.

Interior forrado de veludo vermelho revelou pilhas organizadas de documentos. Escrituras da casa, apólices de seguro, testamento de mamãe. Tudo meticulosamente arquivado, como papai sempre fazia. Procurei pela certidão de nascimento, encontrei-a numa pasta rotulada “Ricardo – Documentos Pessoais!”.

Hesitante, comecei a folhear os papéis. Passaporte, diploma universitário, carteira de motorista. Por trás de tudo, envelope pardo que não reconhecia. Abri com cuidado.

O mundo desabou.

Certidão de adoção. Meu nome em letras garrafais no topo. Data: dois dias após meu suposto nascimento. Pais biológicos: desconhecidos. Pais adotivos: Marina Ferreira Santos e João Santos.

A assinatura de papai parecia estranha, trêmula. Diferentes da que eu conhecia. Falsificada?

Sentei pesadamente na cadeira de couro, papel ainda na mão. Quarenta e um anos de vida desmoronando em segundos. Não era filho biológico. Era adotado.

Memórias começaram a se reorganizar com clareza brutal. Tratamento sempre diferente que recebera em casa. Helena, cinco anos mais velha, sempre a preferida. Sempre a herdeira natural. Eu, o estranho no ninho, tolerado, mas nunca verdadeiramente aceito.

As falas sussurrantes entre papai e mamãe quando pensavam que eu não escutava. As vezes que mamãe olhava para mim com expressão indefinível — não amor materno puro, mas algo mais complexo. Compaixão, talvez. Obrigação.

Helena sabia coisas sobre a família que eu nunca soube? Ela assumiu automaticamente controle da herança após a morte de mamãe. Sempre foi tratada como verdadeira filha, enquanto eu…

O testamento de mamãe fazia sentido agora. Praticamente tudo para Helena. Para mim, apenas quantia simbólica e alguns objetos pessoais. Na época, atribuí à preferência dela pela filha. Agora compreendia: ela era sangue do sangue. Eu era caridade.

A respiração saía em rajadas curtas. Sentia-me tonto, desorientado. Quem eram meus pais verdadeiros? Por que fora abandonado? Helena mentira por décadas sobre ser minha irmã?

O papel caiu das minhas mãos, flutuou até o chão como folha morta.

E eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma.


Guardei a certidão de adoção no envelope, as mãos ainda tremiam. Precisava processar aquela revelação impossível, mas primeiro tinha que esconder a evidência. Helena não podia saber que eu descobrira a verdade — ainda não.

Fechei o cofre rapidamente, recoloquei o retrato no lugar. Os sons ecoavam no andar de baixo, movimentação familiar de quem guardava compras na cozinha. Sons domésticos que antes me tranquilizavam, agora carregados de significado sinistro.

Subi ao quarto, fechei a porta com cuidado. O rádio continuava na cômoda, silencioso e ameaçador. Aproximei-me devagar, como se o aparelho pudesse explodir a qualquer momento. Será que mamãe sabia que eu já encontrara o documento?

Liguei o aparelho com dedos indecisos. Estática familiar preencheu o ambiente, mas desta vez parecia mais densa, carregada de eletricidade. Ajustei o dial cuidadosamente, procurei pela frequência misteriosa. Nada nos primeiros giros. Apenas ruído branco que se intensificava conforme eu explorava diferentes ondas.

Lá embaixo, Helena bateu a porta do armário. Som seco que me fez pular. Concentrei-me no rádio, girei o dial mais devagar. Precisava ouvir mais. Precisava entender o que estava acontecendo comigo.

A transmissão surgiu gradualmente, como nevoeiro que se dissolve. Primeiro, interferência modulada. Depois, respiração suave. Finalmente, a voz dela:
— Continue ouvindo.

Apenas isso. Duas palavras sussurradas com carinho maternal que me gelaram até os ossos. Não era comando agressivo — era pedido gentil, quase súplica. Como se mamãe implorasse para que eu não desistisse, para que eu descobrisse toda a verdade.

Fiquei paralisado diante do aparelho. Parte de mim queria desligar tudo, fingir que nada havia acontecido, voltar à ignorância confortável de algumas horas atrás. Outra parte — a parte que sempre suspeitara que havia segredos na família — implorava por mais revelações.

O som estava cristalino agora, sem interferências. Como se quem quer que estivesse transmitindo tivesse ajustado o equipamento para conexão perfeita. Detalhes técnicos que minha mente racional tentava explicar, sem sucesso. Rádios piratas não funcionavam assim. Transmissões clandestinas não tinham qualidade de estúdio profissional.

Helena começou a cantarolar lá embaixo. Melodia baixa, doce, que reconheci imediatamente — canção de ninar que mamãe costumava cantar para mim quando criança. Coincidência perturbadora que fez meu estômago se revirar.

Será que Helena sabia sobre o rádio? Será que ela também estava recebendo mensagens? Ou era parte de algo maior, mais complexo do que eu conseguia imaginar?

Ajustei o volume, preparei-me psicologicamente para o que mais pudesse vir. A certidão de adoção era apenas a ponta do iceberg — sentia isso no fundo da alma. Mamãe não me guiaria até essa descoberta devastadora sem ter mais informações cruciais para revelar.

Respirei fundo, mantive os dedos no dial. Estava pronto para a próxima revelação, por mais assustadora que fosse.

Lá embaixo, Helena continuava cantarolando, mexendo algo na cozinha. Sua voz doce contrastava grotescamente com o terror que crescia no meu peito.

Esperaria o tempo que fosse necessário.


Aguardei em silêncio por quase uma hora. O rádio permanecia ligado. Emitia estática baixa que se tornara trilha sonora sinistra para meus pensamentos conturbados.

Helena continuava na cozinha, sons domésticos flutuavam escada acima — água corrente, louças tinindo, passos medidos sobre o piso de cerâmica.

Quando a voz finalmente retornou, chegou sem aviso:
— Ela sempre soube.

Meu sangue gelou. As palavras eram pronunciadas com clareza cristalina, sem qualquer interferência. Tom mais sério agora, menos maternal. Quase acusatório.
— Por isso você nunca herdou nada.

A revelação me atingiu como soco no estômago. Helena sempre soube. Soube que eu era adotado, soube sobre a farsa familiar, soube que papai falsificara documentos. E durante todos esses anos, fingira ser minha irmã, permitira que eu acreditasse na mentira.

Desci as escadas devagar, minha cabeça parecia que iria explodir. Precisava ver Helena, observá-la sem que ela percebesse. Precisava confirmar minhas suspeitas crescentes sobre quem realmente controlava aquela situação.

Posicionei-me na entrada da cozinha, escondido pela parede. Ela estava de costas. Mexia o açúcar numa xícara. Cantava baixinho a mesma canção de ninar de antes. Mas agora havia algo perturbador naquele som. Não era nostalgia inocente. Era performance calculada.

Observei seus movimentos com atenção microscópica. Gestos precisos, quase mecânicos. A colher girava no sentido horário, sempre três voltas completas. Postura ereta, ombros alinhados. Tudo muito controlado, muito perfeito. Como se representasse o papel da irmã enlutada e cuidadosa.

Memórias começaram a se reorganizar na minha mente com clareza dolorosa. Helena sempre demonstrara carinho controlado, nunca espontâneo. Abraços que duravam exatos três segundos. Sorrisos que pareciam ativados por interruptor. Conversas que seguiam roteiros pré-determinados.

Durante a adolescência, quando questionara por que eu era tão diferente fisicamente dos pais, Helena sempre desconversara com habilidade cirúrgica. “Genética é imprevisível”, dizia. “Você puxou os avós.” Respostas automáticas que agora soavam como mentiras ensaiadas.

E a herança. Deus, como fora cego! Mamãe deixara praticamente tudo para Helena — casa, conta bancária, joias da família. Para mim, apenas objetos sentimentais sem valor comercial. Na época, pensei que fosse preferência natural por filha mais velha.

Agora compreendia: Helena era a única herdeira legítima. Eu era intruso tolerado.
Voltei ao quarto, a mente fervilhava com as descobertas. O rádio continuava a transmitir e a voz familiar retomou a narrativa:
— Trinta anos de mentiras, Ricardo. Trinta anos fingindo amor fraternal.

Fiquei paralisado. Como aquela voz sabia detalhes tão específicos sobre nossa família? E por que as revelações vinham em fragmentos, como se alguém quisesse que eu descobrisse a verdade gradualmente?

Lembrei-me de outras inconsistências que antes ignorara. Helena nunca chorava de verdade — lágrimas sempre pareciam forçadas, teatrais. Durante o funeral de mamãe, observara como ela controlava cada expressão facial, cada gesto de luto. Pensara que fosse força admirável. Agora suspeitava que fosse frieza calculista.

As visitas médicas de mamãe nos últimos meses também ganhavam novo significado. Helena sempre insistia em acompanhá-la sozinha, alegando que eu trabalhava demais. Controlava informações sobre o estado de saúde, filtrava o que eu podia saber. Dizia proteger-me do sofrimento, mas talvez protegesse seus próprios interesses.

Desci novamente, desta vez observei Helena com olhar completamente diferente. Ela continuava na cozinha, movimentos fluidos e precisos. Mas agora percebia a artificialidade em cada gesto. Como atriz experiente que dominava perfeitamente seu papel.

Quando ela se virou e me viu, ofereceu sorriso caloroso que antes me consolava. Agora parecia máscara grotesca. Estudei seus traços faciais, procurei sinais de manipulação que antes passaram despercebidos.
— Estava procurando você — disse, a voz doce como mel.

Algo no tom me fez hesitar. Havia sutileza estranha na pronúncia, inflexão que reconhecia, mas não conseguia localizar. Observei seus lábios enquanto ela continuava falando sobre trivialidades domésticas.

Gradualmente, uma suspeita terrível começou a se formar na minha mente.
Subi correndo, o sangue rugia nos ouvidos. Precisava confirmar minha suspeita mais assustadora.

Olhei pela janela do quarto, observei Helena através da cozinha. Ela continuava a mexer o açúcar e cantarolando. Mas agora via a verdade: não era minha irmã enlutada que tentava manter memórias vivas.

Era algo muito mais sinistro.


Permaneci no quarto por longos minutos. A mente processava as peças do quebra-cabeça que finalmente começavam a se encaixar. A voz no rádio, o conhecimento íntimo dos segredos familiares, a sincronização perfeita entre as revelações e minha descoberta dos documentos. Tudo apontava para uma conclusão aterrorizante que meu cérebro relutava em aceitar.

Respirei fundo e desci as escadas novamente, desta vez com passos deliberadamente silenciosos. Cada degrau rangeu sob meu peso como acusação sussurrada. O corredor parecia mais longo que o normal, sombras dançavam nas paredes como fantasmas do passado que eu pensava conhecer.

Aproximei-me da cozinha com cuidado de predador, colei-me à parede para observar sem ser detectado. Helena continuava de costas e a xícara na mão. A colher tinindo contra a porcelana criava ritmo hipnótico que contrastava grotescamente com o terror crescente no meu peito.

Foi então que a vi.

Helena pousou a xícara na mesa e se inclinou ligeiramente para a direita, em direção ao aparador antigo que ficava ao lado da pia. Seus dedos se moveram com precisão cirúrgica e alcançaram algo escondido atrás do vaso de flores secas que mamãe mantinha ali há décadas.

Meu coração parou quando vi o que ela segurava: um microfone pequeno, quase imperceptível, conectado a fios que desapareciam por trás do móvel. Helena o trouxe até os lábios com a familiaridade de quem repetira aquele gesto centenas de vezes.
— Continue ouvindo — sussurrou no microfone, com a voz transformada perfeitamente na entonação maternal que eu conhecia desde criança.

O mundo desabou ao meu redor. Não era possível. Não podia ser real. Mas ali estava ela, minha irmã Helena, falando no microfone com a voz exata de nossa mãe morta. Cada inflexão, cada pausa, cada nuance emocional reproduzida com perfeição assustadora.

Memórias de trinta anos explodiram na minha mente como fogos de artifício. Helena sempre fora talentosa para imitações. Na infância, divertia a família quando reproduzia vozes de professores, vizinhos, personagens da televisão. Pensávamos que fosse dom inocente, habilidade engraçada para entreter nas reuniões familiares.

Agora compreendia a verdade diabólica: ela passara décadas estudando mamãe, memorizando cada gesto, cada expressão, cada modulação vocal. Não era talento natural. Era preparação meticulosa para este momento.

Helena continuou falando no microfone, voz de mamãe fluia com naturalidade perturbadora:
— Trinta anos imitando mamãe, aperfeiçoando cada gesto, cada palavra. Você acreditou porque quis acreditar.

Observei, hipnotizado pelo horror, enquanto ela pausava a transmissão e voltava a mexer açúcar na xícara. Transição perfeita entre performance e normalidade, como se alternar entre duas personalidades fosse rotina cotidiana.

A magnitude da manipulação me atingiu como avalanche. Helena orquestrara tudo. Desde o momento em que encontrei o rádio, ela controlava cada revelação, cada descoberta, cada emoção que eu experimentava. Transformara meu luto em teatro macabro onde eu era simultaneamente ator e plateia.

Ela explorava minha dor com precisão de cirurgião e alimentava minha esperança apenas para destruí-la metodicamente.

Lembrei-me de todas as vezes que comentara sobre “sentir a presença de mamãe” na casa. Helena sempre concordava, oferecia conforto aparentemente genuíno. Agora sabia que ela ria internamente da minha ingenuidade e planejava cada passo da revelação que me destruiria completamente.

O microfone voltou aos lábios dela:
— Por isso você nunca herdou nada. Ela sabia que você não era sangue do sangue dela.

Helena pausou, guardou o microfone no esconderijo e se virou lentamente. Nossos olhares se encontraram através da entrada da cozinha. Ela não demonstrou surpresa ou constrangimento por ter sido descoberta. Apenas sorriu — sorriso frio, calculista, completamente diferente da máscara calorosa que usara por décadas.
— Estava me procurando, irmãozinho? — perguntou, voz voltando ao tom doce e familiar.

Mas agora eu sabia a verdade. Helena não era minha irmã. Era predadora que passara a vida inteira preparando este momento de revelação e humilhação.

Trinta anos de mentiras culminavam naquele instante terrível de clareza absoluta.

E o pior ainda estava por vir.


Permaneci paralisado na entrada da cozinha, observando Helena guardar o microfone com movimentos tranquilos. Ela não demonstrava pressa ou nervosismo. Pelo contrário, parecia aliviada, como se finalmente pudesse abandonar a máscara que usara por tempo demais.
— Quanto tempo você estava me observando? — perguntou, voltando-se completamente para mim. O sorriso permanecia, mas agora carregava crueldade que me fazia recuar instintivamente.
— Tempo suficiente — consegui murmurar, a voz saiu rouca e trêmula.
Helena riu, som cristalino que costumava me tranquilizar e agora me arrepiava.
— Imagino que tenha perguntas. Sente-se, Ricardo. Depois de trinta anos representando, mereço plateia adequada para o gran finale.

Obedeci mecanicamente, pernas bambas me levaram até a cadeira da mesa da cozinha. Helena serviu seu chá e se apoiou no balcão com elegância estudada. Gestos domésticos contrastavam, grotescamente, com a confissão que se aproximava.
— Você é fruto de um caso do papai com a secretária da empresa. Mas mamãe o adotou legalmente quando se casaram, após sua mãe biológica ter morrido em acidente de carro quando você tinha 2 meses.

Minha mente lutava para processar as palavras. Helena continuou, voz ganhando tom professoral, como se explicasse problema matemático simples.
— Quando papai morreu, mamãe estava devastada, vulnerável. Perfeita para manipulação. Sugeri que ela refizesse o testamento, alegando que você, sendo adotado, poderia enfrentar complicações legais futuras.
— Por quê? — A pergunta escapou como gemido.
— Dinheiro, obviamente. A herança valia mais de dez milhões. Casa, investimentos, joias da família. Você realmente achou que eu dividiria isso com bastardo que nem sangue nosso tem?

Helena pegou sua xícara, sorveu o chá com delicadeza aristocrática.
— Mamãe assinou o novo testamento três meses antes de morrer. Eu a convenci de que estava protegendo você de futuras disputas legais. Coitada, morreu pensando que fazia favor para o filho adotivo querido.

A revelação me atingiu como punhalada. Mamãe morrera acreditando que me protegia, quando na verdade estava sendo manipulada para me destruir.
— E a imitação da voz? — perguntei, desesperado para entender a extensão da traição.
— Talento natural aperfeiçoado por décadas de prática. Comecei imitando mamãe na adolescência, apenas por diversão. Depois percebi o potencial. Durante a doença dela, gravei horas de conversas, estudei cada inflexão, cada pausa. Quando ela morreu, eu era cópia perfeita.

Helena caminhou até o aparador, retirou equipamento sofisticado escondido atrás dos móveis. Transmissor de rádio, gravadores, fios conectando tudo ao rádio antigo do meu quarto.
— Instalei tudo enquanto você estava no funeral. O rádio era dela mesmo, apenas modifiquei para receber minha transmissão. Você encontraria quando estivesse mais vulnerável, mais suscetível à manipulação emocional.
— Mas por que me contar a verdade? — murmurei, confuso. — Você já tinha tudo.
— Porque queria que você soubesse. Queria que entendesse como foi fácil enganá-lo. Trinta anos fingindo amor fraternal, e você nunca suspeitou de nada.

Helena voltou para perto de mim, inclinou-se até nossos rostos ficarem próximos.
— E sabe o mais delicioso? Você não pode fazer nada. Os documentos são perfeitos, assinados por mamãe, reconhecidos em cartório. Mamãe tinha direito de deixar a herança para quem quisesse.

Senti o mundo desabar definitivamente. Helena estava certa. Mesmo expondo a manipulação, eu não conseguiria reverter a situação legal. Ela planejara tudo meticulosamente, antecipando cada possível contestação.
— Além disso — continuou ela, voz ganhando tom quase maternal — quem acreditaria em você? Homem traumatizado pelo luto, inventando teorias conspiratórias sobre irmã dedicada que cuidou da mãe doente?

Permaneci em silêncio, completamente derrotado. Helena havia vencido em todos os aspectos. Financeiramente, legalmente, psicologicamente. Eu era peça descartável em jogo que ela jogava há décadas.

Helena voltou ao fogão, preparou nova xícara de chá. Seus movimentos eram tranquilos, satisfeitos. Mulher que finalmente podia relaxar após completar obra-prima de manipulação.

Virou-se para mim, oferecendo a xícara com sorriso que misturava triunfo e desprezo.
— Chá, irmãozinho?

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Acidente de Percurso https://sergiodecastella.com/acidente-de-percurso/ https://sergiodecastella.com/acidente-de-percurso/#respond Sun, 10 Aug 2025 20:42:06 +0000 https://sergiodecastella.com/?p=294 O despertador não toca há três semanas. Acordo sempre às sete e meia, como se houvesse algum compromisso à espera. Não há. A luz da manhã entra torta pela persiana quebrada e desenha listras no assoalho de madeira que range sob meus pés descalços. O apartamento cheira a café velho e partituras esquecidas. Caminho até […]

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O despertador não toca há três semanas. Acordo sempre às sete e meia, como se houvesse algum compromisso à espera. Não há.

A luz da manhã entra torta pela persiana quebrada e desenha listras no assoalho de madeira que range sob meus pés descalços. O apartamento cheira a café velho e partituras esquecidas. Caminho até a cozinha. Contorno a pilhas de livros que prometo organizar algum dia – teoria musical, biografias de compositores mortos, manuais de harmonia que consulto quando a insônia aperta.

O café sai aguado. Sempre sai. A cafeteira é velha, mas trocar significaria admitir que pretendo ficar aqui por mais tempo. Bebo mesmo assim. Sinto o líquido morno escorrer garganta abaixo enquanto observo a rua através da janela embaçada. Pessoas caminhando para lugares onde são esperadas. Invejo a pressa delas.

No estúdio – uma generosidade chamar este canto de sala de estúdio –, o piano me cumprimenta com seu silêncio de sempre. O banco está na altura errada, sempre está. Ajusto sem saber por quê. Talvez seja ritual, talvez seja procrastinação disfarçada de preparativo.

É então que vejo: farelos de biscoito espalhados entre as teclas pretas. Jantei aqui ontem, assistindo vídeos de outros músicos no laptop. Gente que consegue terminar o que começa. O pano de limpeza está no mesmo lugar há dias, testemunha muda da minha preguiça criativa.

Limpo as teclas uma por uma. Acaricio a textura lisa do marfim sintético contra os dedos. Cada movimento é cuidadoso, quase reverente. Como se o piano fosse o altar e eu, o penitente em busca de absolvição. Ou pelo menos de inspiração.

A pilha de partituras inacabadas me observa da ponta da mesa. Doze tentativas de composição nos últimos dois meses. Doze inícios promissores que murcharam na segunda página. Melodias que nascem bonitas e morrem de falta de direção, como plantas em apartamento mal iluminado.

Abro o caderno de esboços. A página em branco me desafia. Pego o lápis, desenho algumas claves, apago. Desenho de novo. A borracha deixa rastros cor-de-rosa no papel. Mesmo os começos dos começos me traem.

O relógio da parede marca oito e quinze. Horário nobre para a criatividade, segundo os livros de autoajuda que leio às escondidas. Como se vergonha fosse ingrediente necessário para o fracasso artístico.

Fecho os olhos, respiro fundo. O ar carrega cheiro de madeira velha e sonhos adiados. Quando os abro, minha mão já repousa sobre as teclas. Não lembro de ter feito esse movimento. É instinto, músculo memorizado, corpo que age antes da mente decidir.

A primeira nota hesita antes de sair. Dó natural, simples como respirar. O som se espalha pelo apartamento, toca as paredes, volta transformado. Eco carregado de possibilidades e fracassos anteriores.

Meus dedos encontram o mi bemol quase por acidente. Depois o sol. Três notas que se conhecem há muito tempo, que se buscam como velhos amigos desencontrados. O acorde menor se forma sozinho, preenche os espaços vazios da manhã com sua melancolia familiar.

É nesse momento que sinto. Não a música – essa já estava aqui, sempre esteve. Sinto a presença. Alguém escuta por cima do meu ombro. Julga cada escolha harmônica, cada decisão rítmica. O peso do olhar que conhece meus defeitos melhor que eu mesmo.

Minha mão congela sobre as teclas. O acorde ainda ressoa no ar quando viro para trás.


Ele está lá, mas não está.

É como olhar através de água turva – contorno humano, postura familiar, mas nada que se possa tocar. O paletó puído balança onde deveria haver vento. Não há vento aqui dentro.

Viro de volta para o piano. Talvez, se eu ignorar, ele se desfaça como fumaça de cigarro. Meus dedos procuram as teclas novamente, mas tremem. Que compositor profissional treme diante do próprio instrumento? O tipo que conversa com mortos, imagino.

Pressiono dó maior. Som limpo, honesto. Acrescento o mi, depois o sol. Acorde básico, elementar. Coisa de primeiro ano do conservatório. Mas é um começo.

— Muito elementar.

A voz vem de lugar nenhum e de todo lugar ao mesmo tempo. Grave, pausada, carregada daquela ironia que conheci durante seis anos de aulas particulares. Seis anos de “você pode fazer melhor que isso” e “preste atenção no que seus dedos estão dizendo”.

Não me viro. Se não olhar, talvez ele permaneça apenas voz. Vozes são mais fáceis de ignorar que presenças.

Toco o acorde novamente, desta vez com mais força. As cordas vibram, o som preenche o apartamento pequeno. Sinto-me corajoso por dois segundos.

— Força não substitui técnica.

Lá está ele outra vez. Minha mão esquerda busca a oitava abaixo, constrói um baixo simples. Melodia na direita, harmonia na esquerda. Exercício de textura que ele me fez repetir cem vezes quando eu tinha dezesseis anos.

— Cento e uma – minha mãe contava do sofá, enquanto tricotava cachecóis que ninguém usaria.

A lembrança surge sem convite. Eu ao piano da sala, ele em pé ao meu lado, mãe tricotando e contando. Tarde de sábado, 1995. O cheiro de bolo de fubá vinha da cozinha. Mundo simples, onde erros eram apenas erros, não profecias de fracasso.

Meus dedos tropeçam no acorde de sétima. A memória se desfaz.

— Concentração – diz a voz, mais próxima agora.

Tento novamente. A progressão harmônica se desenrola sozinha, como se meus dedos lembrassem de partitura que nunca escrevi. Dó maior, lá menor, fá maior, sol com sétima. Círculo vicioso de acordes que todo pianista conhece dormindo.

Mas há algo diferente desta vez. A melodia que brota da mão direita não é minha. Reconheço o fraseado, a respiração entre as notas, o jeito de apoiar certas passagens. É o jeito dele de tocar. Como se meus dedos tivessem emprestado sua memória muscular.

Paro abruptamente. O silêncio ressoa mais alto que a música.

— Por que parou?

Desta vez me viro. Ele está sentado na poltrona velha, aquela que comprei no brechó e nunca consegui consertar direito. O braço esquerdo ainda pende meio torto, mas ele se acomoda como se fosse trono. Sempre teve essa capacidade de transformar qualquer móvel em púlpito.
— Porque não é minha música – respondo, surpreso por ter voz.
— E por que deveria ser?

A pergunta fica suspensa no ar como poeira ao sol. Não tenho resposta. Ou tenho tantas que se anulam mutuamente.

Volto ao piano, mas não toco. Apenas olho as teclas, como se elas pudessem me explicar por que um homem morto há três anos está sentado na minha poltrona quebrada, criticando minha técnica e questionando minha autoria.

— Você sempre quis fazer sua própria música – ele continua, e agora sua voz carrega algo que pode ser tristeza. — Mas nunca soube como começar.
— Sei como começar. É terminar que…
— É terminar que você tem medo.

Não é pergunta. É diagnóstico.

Toco um acorde menor, sem olhar para as teclas. A tristeza sai mais honesta quando não preciso pensar sobre ela. Acrescento nona, depois décima primeira. Dissonâncias que se resolvem em lugares inesperados.

— Melhor – ele admite, e há orgulho genuíno na voz. — Agora você está ouvindo a si mesmo.

A música flui por alguns compassos. Não é melodia nova, nem velha. É simplesmente música acontecendo, como conversa entre amigos que se conhecem há muito tempo. Minha mão esquerda encontra padrão rítmico irregular. A direita responde com frases que se quebram e se refazem.

Quando paro desta vez, é porque a música chegou ao fim natural. Como ponto final numa frase bem escrita.

— Viu? Você sempre soube. Só precisava parar de tentar.

Olho para ele novamente. Está mais nítido agora, como se minha aceitação da sua presença o tivesse tornado mais real. Posso ver detalhes que esqueci: a verruga pequena na testa, o jeito de franzir a testa quando concentrado, as unhas sempre impecavelmente cortadas.
— Por que você está aqui? – pergunto, e a pergunta sai mais curiosa que assustada.
— Porque você me chamou.
— Eu não…
— Toda vez que você toca. Toda vez que questiona se vale a pena continuar. Toda vez que olha para essas partituras inacabadas e se sente um fracasso, – ele gesticula na direção da pilha de papéis — você me chama.


Levanto do banco e caminho até a janela. A rua lá fora parece normal. Pessoas caminham em todas as direções, carros cortam as ruas, o mundo funciona como se nada de extraordinário acontecesse no terceiro andar do prédio amarelo.
— Engraçado como a realidade é flexível quando você não está prestando atenção – comento, mais para mim que para ele.
— A realidade sempre foi flexível. Você que insistia em tratá-la como pauta musical.

Volto-me. Ele se levantou da poltrona e agora está em pé ao lado do piano, exatamente como ficava durante as aulas. Mão direita apoiada na tampa, esquerda no bolso do paletó. Postura de quem tem algo importante a dizer e tempo suficiente para dizer direito.
— Sente-se – ele ordena, indicando o banco.
— Não sou mais seu aluno.
— Não. Você é algo muito pior. É um ex-aluno que desistiu de si mesmo.

A frase dói porque é verdade. Sento-me no banco, mas mantenho as mãos no colo. Não quero dar-lhe a satisfação de me ver tocar sob comando.

— Sabe qual era seu problema nas aulas? – Ele não espera resposta. — Você queria ser perfeito antes de ser bom. Queria compor sinfonias antes de dominar escalas. Queria ser Mozart aos quinze quando mal conseguia ser você mesmo.
— E agora?
— Agora você quer ser nada. Que é pior.

Olho para minhas mãos. Dedos longos, unhas mal cortadas, pequena cicatriz no indicador esquerdo de quando tentei consertar a cafeteira sozinho. Mãos que já fizeram música fluir como água. Mãos que agora tremem com medo de tentar.

— Toque algo – ele pede, mas não é pedido. É ordem disfarçada de sugestão.
— O quê?
— Qualquer coisa. A primeira música que vier à mente.

Minhas mãos encontram as teclas quase involuntariamente. Os primeiros acordes de “Für Elise” começam a sair, automáticos como respiração. Peça que todo pianista conhece, que todo professor ensina, que todo aluno odeia depois de tocar mil vezes.

— Pare.

Paro.

— Por que escolheu isso?
— Não escolhi. Saiu.
— Mentira. Você escolheu a música mais segura que conhece. A música que tem certeza de conseguir tocar sem errar.

Ele está certo, como sempre estava. Como sempre estará, imagino.

— Agora toque algo que você tenha medo de tocar.

Meus dedos hesitam sobre as teclas. O que tenho medo de tocar? Música própria? Música dele? Música que significa alguma coisa?

— Toque aquela valsa que você começou no último ano de aulas. A que nunca terminou.

O mundo para. Não lembro de ter mencionado essa valsa para ninguém. Nem para mim mesmo, na verdade. Era melodia fragmentada, esboço de sentimento que nunca consegui transformar em música completa.
— Como você…?
— Toque.

E então, sem entender por quê, começo a tocar.


A valsa sai hesitante, como criança aprendendo a andar. Três por quatro, tempo moderado, mão esquerda marcava o baixo com a regularidade de metrônomo quebrado. A melodia na direita surge fragmentada – frase aqui, pausa ali, lugares onde deveria haver música mas só existe silêncio.

— Você parava sempre no mesmo lugar – ele observa, agora caminhava ao redor do piano. — Compassos dezesseis. Como se houvesse muro invisível.

Continuo tocando. O compasso quinze flui natural, mas quando chego ao dezesseis, meus dedos tropeçam. Sempre tropeçaram. Vinte e três anos depois, ainda tropeçam no mesmo lugar.

— Por que nunca perguntou como passar dali?
— Porque não queria parecer incompetente.
— E preferiu ser incompetente em silêncio.

Paro de tocar. Olho para ele, que agora está de costas para mim, observando a estante de livros que não leio há meses. Mesmo de costas, sinto o peso da sua atenção.

— Sabe qual é o problema de tentar ser perfeito? – ele continua, sem se virar. — É que você para de tentar ser real.

Volto ao piano, mas desta vez ignoro a valsa. Improviso acordes aleatórios, deixo as mãos vagarem sem destino. Dó maior vira lá menor vira mi diminuto. Harmonia sem lógica, como conversa de bêbado.

— Melhor – ele aprova. — Agora você está tocando como se sentisse.
— Como é que você sabe como eu me sinto?
— Porque eu também já fui jovem e arrogante. Também já achei que música era sobre técnica perfeita e teorias corretas.

Pela primeira vez desde que apareceu, ouço algo parecido com vulnerabilidade na sua voz. Viro-me, mas ele ainda está de costas, folheando um livro de partituras que não abro há anos.
— Quando você percebeu que não era?
— Quando você parou de vir às aulas.

A resposta me pega desprevenido. Paro de tocar novamente. Ele fecha o livro e finalmente se vira.
— Você acha que desistiu de mim. Mas eu que desisti de você. Estava tão preocupado em te transformar no pianista que eu queria ser que esqueci de te deixar ser o pianista que você já era.
— Eu não era pianista nenhum. Era só garoto com dedos compridos.
— Exato. Era garoto. E eu transformei cada aula numa prova que você estava destinado a reprovar.

Olho para minhas mãos, ainda pousadas sobre as teclas. Dedos compridos, sim. Mas também calejados de tanto tocar, marcados por anos de música que fluiu e música que empacou. Não são mais mãos de garoto.

— Toque a valsa novamente – ele pede, mas agora a voz carrega gentileza que não lembro de ter ouvido antes.
— Vai dar no mesmo.
— Vai. Mas talvez você descubra que dar no mesmo não é problema.

Recomeço. A melodia surge mais confiante desta vez, como se ela também tivesse amadurecido nestes anos todos. Compasso um, dois, três. A mão esquerda encontra variações no baixo que não existiam antes. Dez, onze, doze.

Quando chego ao quinze, respiro fundo.

Dezesseis.

Não paro.

A música continua, mas é diferente agora. Não é a valsa que eu tentava compor aos vinte anos. É a valsa que posso compor aos quarenta e três. Mais simples em alguns lugares, mais complexa em outros. Com pausas que significam algo, com resoluções que não tentam impressionar ninguém.

Toco até chegar no final natural. Não o final que planejei décadas atrás, mas final que faz sentido aqui, agora, neste apartamento pequeno, com este homem morto me ouvindo.

Quando a última nota se desfaz no silêncio, percebo que estou chorando.

— Pronto – ele diz simplesmente.
— Pronto o quê?
— Você terminou.

Olho para ele, que agora está sorrindo. Não o sorriso irônico que conheci durante as aulas, mas algo mais suave. Quase paternal.
— Não é a mesma valsa – protesto.
— Claro que não. Você não é a mesma pessoa.

Limpo o rosto com as costas da mão. Choro constrange, principalmente na frente de quem já me viu chorar tantas vezes por causa de escalas mal tocadas e arpejos desiguais.
— Por que você está aqui de verdade? – pergunto, e desta vez a pergunta sai carregada de tudo que não consegui dizer durante as aulas.

Ele se aproxima do piano, apoia a mão direita na tampa como sempre fazia. Mas agora vejo que a mão treme ligeiramente. Detalhe que não notei antes, ou que ele não queria que eu notasse.
— Porque você nunca se despediu de mim.
— Você morreu de infarto. Não houve tempo para despedidas.
— Não daquela morte. Da morte que você me deu quando parou de acreditar que valia a pena tentar.

A frase fica suspensa entre nós como acorde não resolvido. Entendo o que ele quer dizer, mas entender não torna mais fácil aceitar.
— Eu tentei. Por anos, tentei.
— Tentou ser o que eu queria que você fosse. Nunca tentou ser você mesmo.

Toco um acorde qualquer, só para preencher o silêncio. Fá maior com sexta acrescentada. Acorde que não resolve para lugar nenhum, que simplesmente existe.
— E se eu mesmo não for bom o suficiente?
— Então você não será bom o suficiente. E aí?
— Aí não vale a pena.
— Segundo quem?

Não tenho resposta. Ou tenho a resposta errada: segundo ele. Segundo os jurados dos concursos que nunca ganhei. Segundo os professores que me comparavam com colegas mais talentosos. Segundo todo mundo exceto eu mesmo.

— Toque uma música que você gosta – ele sugere. — Não uma música impressionante. Música que você gosta de tocar.

Penso por um momento. Minhas mãos encontram os primeiros acordes de “The Way You Look Tonight”, versão que inventei ouvindo Sinatra no rádio aos dezessete anos. Não é composição original, mas o arranjo é meu. Simples, talvez simplório. Mas honesto.

Ele ouve em silêncio, balança a cabeça no tempo. Quando termino, bate palmas lentas, três vezes.
— Essa música te faz feliz.
— Fazia. Quando eu tinha dezessete.
— E agora?

Toco novamente. Presto atenção ao que sinto em vez do que deveria sentir. A melodia flui mais relaxada, os acordes respiram melhor. Há algo prazeroso no simples ato de fazer as teclas soarem.
— Ainda faz – admito, surpreso.
— Então, talvez, o problema não seja sua música. Talvez seja sua plateia.

Olho para ele, confuso.

— Você está tocando para mim há vinte e três anos. Para o meu julgamento, minha aprovação, meu fantasma. – Ele se aproxima mais. — E se tocasse para você mesmo?

A pergunta fica ecoando no ar. Antes que eu possa responder, ele caminha até a porta.

— Onde você vai?
— Para lugar nenhum. Eu já estou morto, lembra?
— Então por que…?

Ele para na soleira da porta, sem se virar.
— Porque nossa conversa está longe de terminar. Mas agora você precisa decidir se quer continuar tocando para fantasmas ou se quer começar a tocar para os vivos.

A porta fecha atrás dele com um click suave.

Fico sozinho no apartamento, sentado ao piano, com dezenas de perguntas sem resposta e uma certeza estranha: amanhã, quando eu acordar, vou tocar alguma coisa. Não sei o quê, nem para quem.

Mas vou tocar.


Acordo às três da manhã com o som do piano.
Não sou eu tocando.

Caminho até a sala, descalço no piso frio. Ele está lá, sentado ao banco, dedos deslizam pelas teclas com a elegância que sempre invejei. A música é desconhecida, mas familiar – como melodia que ouvi em sonho e esqueci ao acordar.
— Sua vez – ele diz sem parar de tocar.
— De quê?
— De me ensinar alguma coisa.

A frase me paralisa. Vinte e três anos de aulas, e jamais imaginei que pudesse ensinar algo a quem me ensinou tudo.
— Eu não sei nada que você não saiba.
— Sabe como é viver depois da música morrer. Eu nunca aprendi isso.

Ele para de tocar. O silêncio que segue é denso, carregado de significados que levo décadas para começar a entender.
— Sente aqui – ele se levanta, cede o banco.

Sento-me, mas não toco. Olho para as teclas como se fossem território estrangeiro.

— Qual foi o último dia que você acordou pensando em música? – pergunta, agora em pé ao meu lado.

Penso, mas a resposta não vem. Foi há tanto tempo que virou abstração.
— Não lembro.
— E qual foi o primeiro dia que você acordou pensando em música?

Essa eu lembro na hora.
— Sete anos. Domingo de manhã. Tinha piano na casa da vizinha, e ela deixava a janela aberta. Alguém tocava Chopin.
— Toque como você tocaria se tivesse sete anos ouvindo Chopin pela primeira vez.
— Não sei como…
— Então aprenda.

A frase ecoa na sala pequena. Aprenda. Como se fosse simples assim. Como se, aos quarenta e três, eu pudesse voltar a ser criança e descobrir que dedos em teclas fazem magia.

Mas talvez seja simples assim.

Toco uma nota. Dó central. Deixo ela ressoar até desaparecer completamente. Depois toco outra. Ré. Escuto de verdade desta vez, não apenas ouço. Há diferença.

— Continue.

Adiciono uma terceira nota. Mi. As três juntas formam acorde, mas não é o acorde que importa. É o espaço entre as notas, o silêncio que elas criam e preenchem.

Começo a construir melodia. Não é complexa nem impressionante. É apenas… honesta. Como criança balbuciando primeiras palavras, mas sabendo exatamente o que quer dizer.

— Agora me ensine – ele diz baixinho. — Me ensine como é continuar a viver quando a música some.

E então entendo. Ele não veio me julgar. Veio aprender.


Toco por uma hora. Talvez duas. Perco a noção do tempo, coisa que não acontecia há décadas. A música flui sem pressa, sem destino específico. Melodias que inventei, temas que roubei, harmonias que surgiram do nada.

Quando paro, olho para o lado.
Ele não está mais lá.

Mas no banco, ao meu lado, há uma partitura manuscrita. Caligrafia que reconheço na hora – a mesma que corrigia meus exercícios, anotava marcações de pedal, escrevia “bom!” nas margens quando eu finalmente acertava passagem difícil.

Pego a partitura. É a valsa. Minha valsa. Mas completa agora. Os compassos que nunca consegui escrever estão ali, com a letra dele, mas a música é inequivocamente minha.

Na última página, uma anotação: “Você sempre soube como terminar. Só precisava parar de ter medo do final.”


Seis meses depois, dou minha primeira aula.

O aluno tem oito anos e dedos que mal alcançam uma oitava. Toca “Ode to Joy” com a determinação de quem escalava montanha. Erra metade das notas, mas cada erro soa como descoberta.
— Muito bom – digo quando ele termina.
— Mas eu errei.
— Errou como quem está tentando. É o melhor tipo de erro.

Ele sorri, volta ao começo da música. Desta vez erra notas diferentes. Progresso.

Quando a aula termina e ele vai embora, fico sozinho na sala. Sento ao piano, coloco a partitura manuscrita no suporte. A valsa completa, com o final que levei vinte e três anos para encontrar.

Toco ela inteira. Soa diferente cada vez, como música viva deve soar.

No último acorde, sinto presença familiar. Não viro para trás. Não preciso. Sei que ele está ali, ou que inventei que está, ou que a diferença entre essas duas coisas talvez não importe tanto quanto eu pensava.
— Obrigado – sussurro para a sala vazia.

A resposta vem no silêncio que segue, na música que ainda ressoa mesmo depois das teclas pararem de vibrar, na certeza de que amanhã vou acordar pensando em música novamente.

Do lado de fora, uma criança toca piano com a janela aberta.

O ciclo recomeça.

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