Arquivo de #DívidaEmocional - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/dividaemocional/ Site de Sérgio de Castella Fri, 01 Aug 2025 21:43:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://sergiodecastella.com/wp-content/uploads/2025/06/Icone-site-150x150.png Arquivo de #DívidaEmocional - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/dividaemocional/ 32 32 245308716 Débito em Carne Viva https://sergiodecastella.com/debito-em-carne-viva/ https://sergiodecastella.com/debito-em-carne-viva/#respond Sat, 26 Jul 2025 11:00:00 +0000 https://sergiodecastella.com/?p=271 Campainha toca às três. Olho pelo olho mágico: terno puído, sorriso de dentes antigos.— Trouxe troco? — voz rouca, dedos tamborilam no vidro. Quero rir, mas frio percorre a espinha.— Banco tá fechado — aviso e giro a tranca. Sombra escorre por baixo da porta, cheiro de flores velhas invade o corredor.Fôlego curto, mãos apertam […]

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Campainha toca às três. Olho pelo olho mágico: terno puído, sorriso de dentes antigos.
— Trouxe troco? — voz rouca, dedos tamborilam no vidro.

Quero rir, mas frio percorre a espinha.
— Banco tá fechado — aviso e giro a tranca.

Sombra escorre por baixo da porta, cheiro de flores velhas invade o corredor.
Fôlego curto, mãos apertam o envelope amarelado.
— Promessa não vence, murmura, olhos grudados nos meus.

Piso em recibos, contas, telegramas esquecidos.

Sombra se senta na poltrona da sala, cruza as pernas:
— Só saio pago.

No relógio, ponteiros engatinham. No peito, dívida lateja.

Seguro o envelope com força, como se fosse amuleto, mas o papel amassado não protege do olhar do visitante. Ele tamborila na poltrona e repuxa o sorriso.

— Vai me oferecer café ou só desculpas? — a voz soa como chuva fina em telhado velho.

Caminho até a cozinha, mãos trêmulas, xícara tilintando no pires. Ele observa cada gesto, olhos fundos medindo o tempo. O cheiro de flores mortas mistura-se ao do café amargo.

— Sempre achei que mortos só quisessem paz — arrisco, servindo a bebida.

Ele sopra o vapor, encosta a xícara nos lábios pálidos.
— Paz não paga juros.

Meu riso escapa, seco, curto.
Volto para o sofá, coloco o envelope entre nós.
— Sabe que não tenho tudo — confesso.

Ele sorri mais largo, dentes amarelados.
— Então ficarei um pouco mais. Consigo esperar.

O relógio ameaça parar.
E a dívida cresce, centavo por centavo, a cada batida do coração.

Dívida de promessas sussurradas no escuro, nunca cumpridas. Dívida de palavras guardadas, favores aceitos, silêncios comprados. Cada escolha esquecida, cada oportunidade negada, cada segredo enterrado com pressa. Dívida que não se escreve em papel, mas se grava na pele, pulsa nas veias.

Toda vez que respiro, ela lembra: um favor não pago, uma ajuda recusada, um perdão adiado. Não são cifras, são ausências.

O visitante não cobra dinheiro, cobra presença, coragem, verdade.

E cada batida do meu coração, hesitante e culpada, aumenta o saldo.

Começo abrindo janelas e deixo a sala engolir luz. Recolho recibos espalhados, leio nomes, datas, promessas apagadas. Faço silêncio, escuto o que a sombra sussurra, sem interromper. Procuro quem ficou esperando: um telefonema, uma carta, um café marcado e nunca servido.

Falo o que calei, peço perdão sem floreios, escuto as mágoas sem desviar o olhar. Encaro o espelho: aceito que falhei, mas também que posso tentar diferente.

Pago cada parcela com honestidade, não moeda.

Mato a dívida quando troco fuga por presença, medo por palavra, vergonha por recomeço.

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