
Papel velho não engana. Desenterrei o envelope, com o testamento, do fundo da gaveta, entre recibos e cartas que nunca mereceram resposta. O cheiro de mofo era quase doce, como fruta passada. Tive vontade de rir — herança, pra essa família, sempre veio azeda. Quebrei o lacre. O estalo ecoou pelo quarto.Li depressa, como quem…

Apoiei as mãos na pia, encarei o espelho. Minha imagem bocejou antes de mim. Sobrancelhas erguidas, sussurrou:— Pronto para encarar tudo? Revirei os olhos.— Só queria escovar os dentes sem terapia gratuita. O reflexo sorriu, mas não era do sorriso.— Ignorar de novo? Virei as costas, respiração curta.Luz piscou.— Foge, campeão. Sou só teu lado…