Arquivo de #LiteraturaBrasileira - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/literaturabrasileira/ Site de Sérgio de Castella Sat, 02 Aug 2025 22:54:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://sergiodecastella.com/wp-content/uploads/2025/06/Icone-site-150x150.png Arquivo de #LiteraturaBrasileira - Sérgio de Castella https://sergiodecastella.com/tag/literaturabrasileira/ 32 32 245308716 Testamento em Falso https://sergiodecastella.com/testamento-em-falso/ https://sergiodecastella.com/testamento-em-falso/#respond Sat, 02 Aug 2025 22:54:38 +0000 https://sergiodecastella.com/?p=276 Papel velho não engana. Desenterrei o envelope, com o testamento, do fundo da gaveta, entre recibos e cartas que nunca mereceram resposta. O cheiro de mofo era quase doce, como fruta passada. Tive vontade de rir — herança, pra essa família, sempre veio azeda. Quebrei o lacre. O estalo ecoou pelo quarto.Li depressa, como quem […]

O post Testamento em Falso apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>

Papel velho não engana. Desenterrei o envelope, com o testamento, do fundo da gaveta, entre recibos e cartas que nunca mereceram resposta. O cheiro de mofo era quase doce, como fruta passada. Tive vontade de rir — herança, pra essa família, sempre veio azeda.

Quebrei o lacre. O estalo ecoou pelo quarto.
Li depressa, como quem puxa o esparadrapo.

“À minha filha legítima, deixo o que sempre foi seu por direito.”

O nome, Serena Maria Bragança, dançava no papel.
Meus olhos arderam, mas não chorei. Nunca dei esse gosto.

Quis rasgar, mas meus dedos hesitaram.
O velho conseguira, no fim: outra vez, deixara todo mundo de joelhos, disputando o osso.

No espelho, vi a mulher dura, as linhas do rosto desenhavam trincheiras.
Pensei na mãe, nas tardes de domingo em que ela escovava meu cabelo até arrancar lágrimas, “pra aprender a ser forte!”.
Olhei para as mãos: unhas curtas, veias saltadas, cheiro de fumaça.
Era isso. Força sem delicadeza.

Chamei Marcelo.
— Marcelo!

Silêncio.
Desci as escadas, cada degrau um protesto.
A casa inteira parecia farejar o escândalo antes de mim.

Ele estava na cozinha, camisa desabotoada, olhos de ressaca.
A terceira cerveja, aberta antes do meio-dia.
Joguei o envelope na mesa. O som seco atravessou o cômodo.

Marcelo leu devagar. O rosto, que sempre carregou sarcasmo como defesa, foi desbotando.
— Filha legítima… — murmurou, a voz arrastada.
— Isso muda tudo.
— Isso acaba com tudo.

Ficamos parados, dois adultos exaustos, cercados de migalhas do que um dia se chamou família.
O relógio mastigava minutos.
— Serena não pode saber — falei.

Marcelo me olhou, olhos de quem já perdeu antes de começar.
— Alguém vai registrar.
— Não se ela não for.

Ele suspirou fundo, encarando o teto como se quisesse resposta das rachaduras.
— Como pretende impedir?

Acendi um cigarro.
— Ela sempre fugiu dessas burocracias.

Marcelo sabia. Quando falo daquele jeito, já decidi.
A família Bragança nunca foi de consenso. Cada um com seu segredo.

Ele se serviu do resto da cerveja, enquanto me observava como se tentasse medir o peso da minha decisão.
— Você vai longe demais, Isabel.
— Não existe longe pra quem nunca teve onde ficar.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso de quem desistiu de discutir.
— Serena vai reagir.
— Que tente.

No quarto, sentei de frente para a caixa de sapatos. Fotos antigas, cartas amareladas, documentos de procedência duvidosa.
Encontrei o exame de sangue. Ano 1989.
Nome do velho. Nome da moça do coral.
Incompatibilidade total.
Sorri, pequena vitória.

O segredo nunca foi Serena.
O segredo era eu.
Dobrei o exame, coloquei no sutiã.
Vesti o linho preto.
Ia visitar Serena. Sem flores.

No portão da casa dela, esperei no carro. O piano desafinado vazava pela janela.
Serena sempre foi de ruído, nunca de ordem.
A rua das Acácias era mais silenciosa do que lembrava. O sol de fim de tarde lambia o capô do carro.
Observei a fachada: tinta descascada, jardim sem poda, uma bicicleta encostada no portão. Fiquei ali, sentindo o pulso acelerar, até decidir sair.

Desci, salto grosso, batom seco.
Toquei a campainha, dois toques curtos, batida de juiz.
O piano parou. Passos arrastados. Voz de ressaca:
— Já vai!

Serena abriu, cabelo preso com elástico frouxo, camiseta dos Beatles, sem sutiã.
O olhar demorou pra me reconhecer.
— Isabel? Que foi?
— Você. — Entrei sem convite.

Ela fechou a porta, devagar.
— Parece… pastora antes do dilúvio.
Joguei a bolsa no sofá. O cheiro de pão queimado e incenso de sândalo me deu nos nervos.
— Soube do testamento.

Ela deu de ombros, encostada no batente.
— Engraçado, né? Nunca pensei que ele fosse me deixar nada.
— Engraçado? Só pra quem já nasce rindo da tragédia.

Nada de risada. Fui atrás até a cozinha.
— Café? — perguntou com o coador na mão.
— Mentira e café não se misturam.
— Então toma só mentira hoje.

Ela acendeu o fogo. Coloquei o envelope na mesa, com a ponta dos dedos.
— Você foi feita numa semana de vinho ruim. Mas não carrega o sangue dele.

Serena virou, devagar.
— O que é isso?
— O que você é. Ou não.

A chama azul tremulava, refletida nos olhos dela.
— Por que você tem isso?
— Ele não era burro, só distraído. Fez o teste, escondeu. Eu achei.

Ela não tocou no papel.
— Guardou esse tempo todo?
— Quer saber há quanto tempo sei que você é filha do maestro de voz fina?

Ela piscou lento.
— Não. Quero saber por que agora.

Sorri pequeno.
— Porque agora você tem o que perder.

O bule chiou. Ninguém se moveu.
— Não quero nada que não seja meu, Isabel.
— Você vive de esquecimento, Serena, não de sangue.

Ela riu, sem graça.
— E você vive do quê? Do que sobrou?
— De vingança. Agora com validade.

Serena desligou o fogo.
— Por que veio?
— Avisar. Vou contestar o testamento. Ninguém vai ver um centavo. Vou mostrar para todos. Acabou.
— Quer me destruir?
— Quero justiça. Bastardo tem que saber onde pisa.

Serena cruzou os braços, olhos no envelope.
— Ele me ligou antes de morrer. Queria explicar.
— Explicou?
— Não. Não atendi.

Ficamos ali, duas mulheres que sabiam demais. Uma quer justiça, outra só… ar.
Peguei o envelope. Guardei na bolsa.
— Achei que você fosse mais esperta.
— Sou. Por isso não te expulso. Você vai embora logo.

Ri. Primeira vez no dia.
— Ainda tem algo do velho em você, no fim.

Saí. No carro, o envelope queimava na bolsa. Não era mais segredo. Era munição.

Três dias de silêncio. Nem telefonema, nem intimação. O grupo da família, quieto.
Quando Bragança se cala, é tempestade.

No quarto, Marcelo apareceu.
— Você tá bem?

Assenti, sem olhar.
— Serena não vai deixar barato.
— Ela nunca deixou.

Ele se sentou na beira da cama, mexendo na aliança.
— Você já pensou em… deixar?
— Deixar o quê?
— Essa guerra.
— Só acaba quando não tem mais ninguém pra brigar.

Ele olhou pela janela, como se buscasse saída.
— Eu sou o irmão do meio. Só assisto.
— Covardia também é escolha.
Ele não respondeu.


Do outro lado da cidade, Serena sentou no chão da sala. Caixa de madeira crua, cheia de coisas que nem ela sabia por quê.
Fotografias velhas, pulseira de hospital, chave sem dono, cartas da mãe, duas negativas de DNA, fita cassete.

A fita, adesivo trêmulo: “Confissão. 2001.”
Pegou o rádio, espanou poeira, encaixou a fita.
Chiado, voz cansada do velho:
— Se alguém tá ouvindo, é porque morri. Se morri, é porque tentei proteger o que era frágil.

Tosse. Pausa.

— Serena não é minha filha. Menti. Não do jeito que pensam. Menti sobre o motivo.

Serena gelou. O gravador continuou:
— Isabel era jovem. Apaixonada pelo padre novo. Engravidou, tentou esconder. Vi tudo. Quando nasceu, a mãe queria mandar pra adoção. Não deixei. Assumi como minha.
— Isabel nunca olhou pra ela. Nunca tocou. Então fui pai duas vezes. Só reconhecido no silêncio.

A gravação acabou. Pancada seca, talvez o velho deixando o microfone cair.
Serena ficou sentada. O rosto parado, mas o olhar atravessava tudo.
Não era bastarda. Era filha.
De Isabel.
E Isabel sabia.
Mentira sobre mentira, em camadas.

Serena levantou. Olhou no espelho. Mesmo nariz, mesmo maxilar. Isabel sempre dizia que ela tinha a cara da mãe do maestro. Agora fazia sentido: desculpa pra não olhar a própria filha nos olhos.

Pegou o celular. Discou.
— Marcelo?
— Oi.
— Tá de pé aquela cerveja do velório?
— Agora?
— Antes que tua irmã arranque tua língua.
Marcelo bufou.
— Passa aqui. Bar do Italiano.
Serena pegou fita, caderno, chave. Saiu.

No carro, rádio ligado, música dos anos 80. Adolescência ferrada no ar.
No bar, Marcelo já esperava, olhar de cachorro escaldado.

Serena sentou, pediu cerveja.
— Tua irmã tá armando alguma, né?
— Sempre.

Serena riu, mas não era riso de verdade.
— Lembra quando a gente se escondeu no sótão durante a viagem pro interior? — ela perguntou.

Marcelo sorriu, meio torto.
— Você tinha medo de escuro.
— Não do escuro. Do que podia aparecer quando a porta fechava.

Ficaram em silêncio. O barulho do bar competia com a memória.
— Você vai enfrentar Isabel? — ele arriscou.
— Não. Só não vou mais fugir.

Marcelo olhou para o copo.
— Cuidado. O que ela faz, ela faz direito.
Serena ergueu o copo.
— Ninguém herda só o sobrenome.

Na volta pra casa, Serena passou pela praça da igreja. O coreto vazio, bancos tomados por pombos, um casal discutia baixinho.
Ela ficou olhando, sem ouvir o que diziam, mas adivinhando — toda família tem um palco e uma plateia.

Em casa, sentou ao piano.
Dedos hesitantes, depois firmes.
A música saiu torta, mas sincera.
Ela pensou em Isabel, no rosto dela quando a verdade batesse.
A campainha tocou.
Susto.

Era D. Zuleika, a vizinha.
— Serena, seu correio veio aqui por engano. — Ela entregou um envelope, sorriu. — Tudo bem com você? Pareceu cansada esses dias.
— Só sono atrasado.

D. Zuleika hesitou, depois olhou pra dentro.
— Sabe, minha mãe dizia que mãe e filha nunca brigam pra sempre. Uma hora, alguma coisa puxa de volta.

Serena agradeceu, fechou a porta.
Guardou o envelope sem abrir.
Sentou no sofá, abraçou o travesseiro.
Por um instante, desejou poder voltar no tempo.
Só por um instante.


Na manhã seguinte, acordei antes do sol.
No espelho, procurei sinais de fraqueza.
Nada.
A mesma mulher.

Fui ao escritório. Pilhas de papéis, o testamento, o exame, a pasta vermelha.
Sentei. Li tudo outra vez.
Busquei furos, desculpas, atalhos.
Só encontrei a mim mesma, parada na porta do passado.

O telefone tocou.
Tia Olga.
— Isabel, só queria dizer que todo mundo vai no domingo. O salão vai lotar.
— Vai ser bonito.

Ela hesitou.
— Eu sei que o velho não foi fácil, mas família é isso. A gente se engole e depois se abraça.
Desliguei.
Família era outra coisa.

Na cozinha, Marcelo apareceu, prato de bolo na mão.
— Tia Olga trouxe. Disse que bolo cura tudo.
— Menos testamento.
Ele riu.
— Você já decidiu o que falar domingo?
— O que todo mundo quer ouvir.

Marcelo mastigou devagar.
— E o que você quer?
Não respondi.
Ele deixou o prato vazio na pia e saiu.

No final da tarde, fui ao cemitério.
O sol já sumia.
Levei flores para o velho, mas não rezei.
Fiquei parada, olhando a lápide, tentando lembrar de uma última conversa que não fosse briga.

Uma mulher se aproximou, cabelos brancos, passo arrastado.
— Era seu pai? — perguntou.
Assenti.
Ela pôs as mãos nas minhas.
— O meu também está ali. A gente nunca entende direito, né? Só sente falta depois que não dá pra perguntar mais nada.
Fiquei em silêncio.
Ela foi embora devagar.

No caminho de volta, parei na padaria.
Comprei pão, jornal, cigarro.
O balconista sorriu.
— Família toda reunida domingo, né, D. Isabel?
Boa homenagem.
Sorri de volta.
— Nem sempre é boa.
Mas é o que temos.

De noite, sentei na varanda.
O vento cheirava a chuva.
Olhei o céu, tentei encontrar respostas nas estrelas.
Nada.
Só silêncio.


Domingo, onze e meia.
Salão nobre da Sociedade Musical Bragança & Filhos.

Palco armado com flores falsas, cadeiras desconfortáveis.
Placa dourada: “Homenagem póstuma a Umberto Bragança – Maestro, Pai, Legado.”

Sentei no centro. Vestido azul-marinho, broche de pérola. Luto elegante. Palco sempre foi território Bragança.

Marcelo à direita, cara de ressaca. À esquerda, cadeira vazia: Serena.
O público sussurrava. Sussurro coletivo é música antes do clímax.
Toquei o microfone.
— Obrigada a todos pela presença. Celebramos o homem que formou, deformou e transformou esta família. Que compôs com notas e decisões. Que fez da música e da memória seus instrumentos.

Minha voz firme, clara. Sermão com veneno.
— Mas a maior obra do meu pai não foi pública. Foi privada. Foi… Serena.

Murmúrios. Rosto controlado.
— Mesmo não sendo filha biológica, foi criada com dignidade. Ele amava como filha. Mesmo sem ser. Isso é mais bonito que qualquer testamento.

Marcelo virou a cabeça.
— O que você disse?

Sorri, calma.
— Ele era bom demais. Assumiu como filha aquela que não era sangue dele.
Silêncio de pedra.

A porta do fundo abriu.

Serena entrou. Calça preta, camisa branca, cabelo solto. Sem adorno. Só a fita na mão.
Subiu ao palco. Olhei para ela. Sorriso congelado, gelo escorrendo pela espinha.
— Bom dia. — Pegou o segundo microfone. — Não vou tomar muito tempo.

Ela olhou o público, depois a mim.
— Quando tinha cinco anos, perguntaram quem era minha mãe. Eu disse ninguém. Porque a mulher que me gerou nunca me olhou sem ódio. Hoje, entendi o porquê.

Cruzei os braços. Olhar de lixa.

Serena ergueu a fita.
— Meu avô gravou isso antes de morrer. Confessou que a mentira não era minha. Era dela.

Alguém tossiu. “Meu Deus”, alguém sussurrou.

— Ele contou que Isabel engravidou do padre. Tentou me esconder. Ele me salvou de virar segredo. Mas ela nunca me perdoou por nascer.

Levantei. Rápido.
— Mentira. Não prova nada.
— Prova sim. — Serena tirou gravador do bolso. — Ouve com a plateia.
Apertou play.

A voz do velho soou como trovão. Nomes, datas, fatos. Sem pausas. Sem perdão.
Tropecei um passo para trás. Marcelo segurou meu braço.
O público em silêncio absoluto.

Serena desligou o gravador.
— Não quero herança. Não quero casa. Não quero sobrenome. Vim só devolver isso — estendeu a fita. — A história é tua. Agora todo mundo conhece o enredo.

Fiquei olhando para o objeto. Não peguei. Mãos congeladas.

— Mais uma coisa. — Serena virou-se à plateia. — O testamento foi anulado ontem. Por decisão judicial. Não porque pedi. Porque encontraram minha certidão original.
Pausa.
— Sou filha legítima. De Isabel Bragança.

O silêncio estalou. Depois vozes, suspiros, descrença.
Serena desceu do palco, calma.
Passou pelas cadeiras como visitante em festa alheia.
Lá fora, o sol feria os olhos. O rosto dela sorria pela primeira vez.
Dentro, permaneci em pé. Estátua rachada.
Controle nas mãos, e nada mais pra segurar.


No estacionamento, sentei no carro. O envelope no colo, leve, inútil.
Vi Serena cruzar a rua, passos firmes, gravador no bolso, cabelo balançando. Parecia herdar do velho a capacidade de reconstruir ruínas.

Marcelo saiu do salão, olhou para mim, balançou a cabeça, mãos nos bolsos. Não quis conversa.

Liguei o carro. O rádio tocava música antiga. O som enchia o vazio de lembranças. O cheiro de papel velho ficou para trás.

Em casa, tirei o vestido, guardei o broche. No espelho, procurei alguma coisa que ainda me pertencesse.

No fim, o que restava era silêncio. E, dessa vez, não queria dizer nada.

Serena, do lado de fora, respirou fundo. Olhou para o céu.
O vento mexia o cabelo, levantava poeira.

Abriu o caderno de partituras, escreveu:
“Ninguém herda só o sangue. Herda também o que faz com ele.”

Sorriu.
Foi embora.

O post Testamento em Falso apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>
https://sergiodecastella.com/testamento-em-falso/feed/ 0 276
Bisel do inconsciente https://sergiodecastella.com/bisel-do-inconsciente/ https://sergiodecastella.com/bisel-do-inconsciente/#respond Sat, 28 Jun 2025 11:00:00 +0000 https://sergiodecastella.com/a-importancia-de-ler-para-escrever-melhor/ Apoiei as mãos na pia, encarei o espelho. Minha imagem bocejou antes de mim. Sobrancelhas erguidas, sussurrou:— Pronto para encarar tudo? Revirei os olhos.— Só queria escovar os dentes sem terapia gratuita. O reflexo sorriu, mas não era do sorriso.— Ignorar de novo? Virei as costas, respiração curta.Luz piscou.— Foge, campeão. Sou só teu lado […]

O post Bisel do inconsciente apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>

Apoiei as mãos na pia, encarei o espelho. Minha imagem bocejou antes de mim.

Sobrancelhas erguidas, sussurrou:
— Pronto para encarar tudo?

Revirei os olhos.
— Só queria escovar os dentes sem terapia gratuita.

O reflexo sorriu, mas não era do sorriso.
— Ignorar de novo?

Virei as costas, respiração curta.
Luz piscou.
— Foge, campeão. Sou só teu lado que não pede licença.

Tranquei a porta, coração acelerado.
Do outro lado, ouvi:
— Te encontro no próximo espelho, relaxa.

O post Bisel do inconsciente apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>
https://sergiodecastella.com/bisel-do-inconsciente/feed/ 0 60
Choro Proibido https://sergiodecastella.com/choro-proibido/ https://sergiodecastella.com/choro-proibido/#respond Sat, 21 Jun 2025 11:00:00 +0000 https://sergiodecastella.com/?p=230 — Engole o choro, Lucas. Homem não chora. Meu pai não piscava. O retrato da vovó tremia na parede, pendurado torto. O cheiro de café queimado enchia a cozinha, misturado com o silêncio. Eu sentia o nó na garganta, cada vez mais grosso.— Vai, engole! — ele repetiu, mais alto. A xícara rachou na mão […]

O post Choro Proibido apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>

— Engole o choro, Lucas. Homem não chora.

Meu pai não piscava. O retrato da vovó tremia na parede, pendurado torto. O cheiro de café queimado enchia a cozinha, misturado com o silêncio.

Eu sentia o nó na garganta, cada vez mais grosso.
— Vai, engole! — ele repetiu, mais alto.

A xícara rachou na mão dele, café escorreu pelos dedos.
Olhei para o chão, respirei fundo, deixei o choro preso no peito.

No velório, só o cachorro chorou.
Meu pai me olhava.
O nó virou pedra.
Ninguém percebeu quando parei de falar.

O post Choro Proibido apareceu primeiro em Sérgio de Castella.

]]>
https://sergiodecastella.com/choro-proibido/feed/ 0 230